7 de julho de 2026Saúde
Por Dra Mariana Roldi, Dr Alexandre Toledo e Dr Fábio Poianas Giannini A crise dos prontos-socorros hospitalares e das Unidades de Pronto Atendimento no Brasil é frequentemente explicada quase exclusivamente pela demanda, seja pela procura de casos que poderiam ser resolvidos em outros pontos da rede, por fragilidades da Atenção Básica ou por picos sazonais. Esses fatores são relevantes, mas não explicam, sozinhos, a persistência do congestionamento observado em diferentes serviços e contextos. A literatura descreve a superlotação como um fenômeno multifatorial, distribuído ao longo de todo o percurso do paciente, desde a entrada até o processamento interno e a saída do serviço. Em outras palavras, parte importante das causas e das alavancas de solução está fora da emergência, vinculada à governança hospitalar, à gestão de leitos e altas e à articulação com a rede assistencial. Essa perspectiva é particularmente útil para gestores porque desloca o foco de explicações centradas apenas na porta de entrada para intervenções sistêmicas orientadas por fluxo (Morley et al., 2018). A mensuração do desempenho operacional dos serviços de emergência requer um conjunto estruturado de métricas que capturem as diferentes fases do percurso do paciente. A literatura internacional consolidou o modelo input-throughput-output como referência para organizar indicadores de fluxo e superlotação (Khalifa; Zabani, 2016; Gross; Lane; Timm, 2023). Nesse modelo, as métricas de input (entradas) incluem volume e acuidade dos pacientes, taxa de evasão antes do atendimento e taxa de retorno em 72 horas; as métricas de throughput (processamento interno do paciente no serviço) abrangem tempo de permanência total no serviço, tempo porta-médico, taxa de ocupação do pronto-socorro, tempo até triagem e razão paciente-equipe; e as métricas de output (saídas) compreendem tempo de boarding (paciente no pronto-socorro após decisão de internação, aguardando leito disponível), número de pacientes em boarding, disponibilidade de leitos hospitalares e de UTI e o tempo entre decisão de internação e transferência efetiva (Khalifa; Zabani, 2016; Gross; Lane; Timm, 2023). Estudos comparativos e processos de consenso sugerem que, entre as métricas mais úteis para monitoramento e priorização em tempo real, destacam-se o tempo de espera para atendimento, a taxa de ocupação do pronto-socorro e o tempo de boarding, por sua relação com desfechos como retornos em 72 horas (McRae et al., 2022; Beniuk; Boyle; Clarkson, 2012). A tese deste artigo é que o colapso das emergências não se explica apenas pela demanda na porta de entrada. Em múltiplos hospitais, públicos e privados, a superlotação tende a se sustentar quando falham mecanismos de governança do fluxo, especialmente na saída, envolvendo leitos, altas e retaguarda. Nesse contexto, duas dimensões subestimadas tornam-se decisivas para a execução de qualquer agenda de melhoria: o desenho físico dos serviços, quando fragmenta o cuidado e dificulta coordenação, e a organização da força de trabalho médica, quando instável e rotativa, limitando padronização e resposta clínica. Ao integrar esses elementos, argumenta-se que enfrentar a superlotação exige indicadores operacionais consistentes e um conjunto de ações que alinhe governança do fluxo, estrutura física e capacidade de execução clínica, com especial atenção aos mecanismos de saída que sustentam o colapso. A Geografia do Atraso: o Desenho Físico como Obstáculo Em muitos serviços, a estrutura física parece pouco aderente às exigências do fluxo assistencial em urgência, estão longe de serem espaços integrados que favorecem o fluxo contínuo, muitos serviços são arranjos físicos fragmentados que impõem barreiras visuais e físicas entre a equipe e o paciente. O modelo tradicional, baseado em uma lógica de “empurrar” o paciente de um setor para outro (recepção, triagem, espera, consultório, medicação), cria ineficiências operacionais severas, gerando esperas desnecessárias entre cada etapa do processo (Ferro, 2008). A arquitetura física inadequada gera o que a literatura de gestão Lean aponta como desperdício de movimento, em que a fragmentação espacial impede a comunicação fluida entre médicos e enfermagem. A ausência de gestão visual, na qual não se identifica claramente quem está aguardando atendimento, qual procedimento está pendente e em que etapa do fluxo o paciente se encontra, transforma o serviço em uma “caixa-preta” operacional, dificultando o fluxo contínuo do paciente. Essa discussão pode ser ampliada quando se observa que o desempenho do fluxo assistencial depende de fatores organizacionais que atravessam o espaço físico, em estudo qualitativo sobre gestão de leitos em emergências hospitalares de alta complexidade, destacaram-se como fatores centrais para o funcionamento do sistema a comunicação entre equipes e unidades, as decisões compartilhadas, o planejamento de ocupação e alta e o tempo de permanência dos pacientes (Porto, 2023). Em direção semelhante, revisão integrativa sobre estratégias relacionadas à regulação de leitos identificou repercussões em indicadores como tempo médio de permanência, ocupação e rotatividade, reforçando a centralidade da organização hospitalar para o desempenho das emergências (Maldonado et al., 2021). Nesse contexto, quando o layout fragmenta a visibilidade do cuidado e dificulta a coordenação entre setores, o espaço físico deixa de ser mero suporte e passa a contribuir para a produção de atrasos, retrabalho e opacidade operacional. Contudo, o gargalo arquitetônico mais crítico reside nas salas de observação e estabilização. Projetadas para estadias curtas, teoricamente até 24 horas para observação e até 4 horas para estabilização (CFM, 2014), essas áreas frequentemente sofrem uma mudança recorrente de função, convertendo-se em enfermarias de internação improvisadas devido à insuficiência de leitos de retaguarda hospitalar (O’dwyer et al., 2017). A conversão recorrente dessas áreas em espaços de permanência prolongada também revela que a superlotação não pode ser lida apenas como excesso de chegada de pacientes. Quando a observação passa a funcionar como internação improvisada, o problema deixa de ser exclusivamente de porta de entrada e passa a expressar falhas de saída, retaguarda e circulação interna. A literatura recente sobre superlotação é clara ao mostrar que as causas e soluções não se distribuem de forma homogênea e que respostas efetivas dependem de identificar, em cada contexto, onde o fluxo está sendo interrompido, se na entrada, no processamento interno ou na saída do serviço (Morley et al., 2018). Essa leitura ajuda a sustentar que, no caso dos prontos-socorros brasileiros, a estrutura física e o arranjo operacional não apenas recebem a crise: …
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